Curso: a arte contemporânea e o realismo capitalista: é possível (ainda) a arte ser política?

Muito feliz em oferecer esse curso pela plataforma que está recém iniciando sua jornada, obrigado ARTESTUDOS!

a arte contemporânea e o realismo capitalista: é possível (ainda) a arte ser política? 

A – Sobre o curso: 

Nas últimas décadas a esfera social vem passando por uma espécie de desintegração. O passado, o presente e o futuro tornaram-se imagens turvas, ficções de tempo, às vezes inapreensíveis com o devido peso necessário. Estamos imersos naquilo que Mark Fisher chamou de realismo capitalista, um campo ideológico transpessoal, uma estrutura de sentimento que coloniza o inconsciente cultural em acordo com as premissas do neoliberalismo. 

Desse modo, não seria diferente quando se trata das zonas de sentido da “arte contemporânea”, pois há atravessamentos explícitos do sistema de equivalência geral do neoliberalismo aos modos de vida que a arte se dispõe a articular. O “fim da história” de Fukuyama, tão criticado no passado, parece capturar o presente, fazendo desaparecer não apenas o sujeito da História, como também a capacidade política das formas de vida atuais em produzir o amanhã. A arte enquanto produção de um horizonte também se desarticula, na medida em que adentra num cinismo que simula a política. 

O período do curso, pretende percorrer o diagrama complexo das relações de forças que se estabelecem no presente em articulação com questões relativas ao campo da arte, universidade, cultura, política e sociedade de fluxos.

B – Sobre o curso: 

O curso faz uma pergunta, “se arte contemporânea pode ser política mesmo nos dias atuais”, os quais estão presos na atmosfera do realismo capitalista. No entanto, esse questionamento não é retórico, pois de fato há vários problemas de ordem política que devem ser explanados a partir daí. Pois se o neoliberalismo faz morrer a agência  política da sociedade, porque o mesmo deixaria a “arte” de fora desse cancelamento da agência política?  

C – Sobre o método do curso:

Escolhemos por atravessar vários textos, tanto de Mark Fisher como de outros autores e autoras que possam nos ajudar a compor a constelação de possíveis temas. Não se trata de uma múltipla abordagem, tampouco de uma diversidade de textos, mas de uma relação com um aparato discursivo/ conceitual específico que ao mesmo tempo que é comum pode tratar de algo completamente distinto. Assumimos que é um tanto perigosa a extensão explícita de um conceito completamente fora da arte ou do seu campo, como o de realismo capitalista, com a “arte contemporânea”, a qual desde já, alertamos, é impossível de apreender todos os aspectos. 

D – Referências bibliográficas para cada encontro:

ENCONTRO 1 – 22 de Março, 19:00

Tempo/Futuro/ e o Novo

Referências bibliográficas: 

O Novo tempo do mundo, Paulo Arantes

Tudo que é sólido se desmancha no ar, Marshall Berman

Depois do Futuro, Franco Berardi 

O retorno do real, Hal Foster

Pós-modernismo a lógica cultural do capitalismo tardio, Fredric Jameson

In the flow, Boris Grois 

Realismo Capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? , Mark Fisher*

Faremos também nesse encontro uma contextualização de Fisher.

ENCONTRO 2 – 29 de Março, 19:00

Crítica/Cinismo generalizado/Hauntologia

Referências bibliográficas: 

Cinismo e falência da crítica, Vladimir Safatle

O retorno do Real, Hal Foster

Cultural Class, Martha Rosler

A vanguarda conservadora, Richard Schechner

Ghosts of My Life: Writings on Depression, Hauntology and Lost Futures, Mark Fisher

Leituras de apoio:

Retromania: Pop Culture’s Addiction to Its Own Past, Simon Reynolds

Pós-crítica, Revista Arte Ensaio, Hal Foster

Gato Tosco Contra Tigres de Papel, Bruno Trchmnn e JP Caron

9.5 Teses sobre arte e classe, Ben Davis, Tradução de Bruno Trchmnn

ENCONTRO 3 – 05 de Abril 19:00

Arte e Agência política para o futuro

Referências bibliográficas: 

ContraContemporâneo, Suhail Malik

Sobre o inefável fascínio por conquistar agência sistêmica, Victoria Ivanova

O trabalho do inumano, Reza Negarestani

Duty free art, Hito Steyerl

Leituras de apoio:

Inventing the Future , Nick Srnicek e Alex Willians

E – Metodologia dos encontros:

Cada encontro terá como base as respectivas referências de cada dia.  Uma apresentação dos principais temas de cada obra e sua relação com o curso será produzida pelo propositor e demonstrada aos participantes. 

Um Google Drive disponibilizará os textos ou livros para cada encontro, ou o capítulo que será utilizado. Nem todos os livros estão disponíveis em PDF.  

Uma comunicação prévia sobre o encontro será feita via email. 

Preza-se pelo feedback participativo de cada encontro. 

F – Sobre o proponente:

Ali do Espírito Santo é artista, curador independente e ensaísta. É graduado em Artes pelo Instituto de Artes na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Escreve para o site Trunoir (França). Mestrando em Psicologia Social.

carga horária: 9H

valor: r$ 85,00

vagas: 20 (3 bolsas disponíveis)

datas: 22 e 29 de Março, 05 de Abril –  2021 – 19h

plataforma: google meet

pagamento pelo sympla

https://www.sympla.com.br/curso—a-arte-contemporanea-e-o-realismo-capitalista-e-possivel-ainda-a-arte-ser-politica__1114435

*artista da imagem que abre o cronograma: Katharina Grosse CONTATO, SUGESTÕES, DÚVIDAS SOBRE BOLSAS E DATAS: artestudoscontato@gmail.com

Positivismo de Plataformas

A internet como espaço de expressão individual de algum tipo de convivência coletiva colapsa assim como a democracia representativa em 2020. Nada mais resta a ser feito na internet agora que as plataformas dominaram o ciberespaço como extensão do empreendedorismo de si. A morte da política tem a ver principalmente por termos desejado que as plataformas tomassem as dimensões gerais de nossas vidas. Tanto é que o SUS pode desaparecer sem problema algum, desde que continuemos podendo pagar comida pelo Ifood ou pedir um UBER por cinco reais, mesmo sabendo que isso não paga nem metade do caminho percorrido. É o ciberespaço como investimento de desejo da humanidade que desfaz as políticas públicas, o Estado, e tudo o que ele ainda manuseia como gestão da própria cidade. 

No ápice do Facebook no Brasil era possível que abaixo das postagens desenvolvêssemos um fórum de discussão quando essa era alguma polêmica, e então o tribunal da opinião e exposição deliberada de qualquer um funcionava ali mesmo. Agora com o sucesso do Instagram, e o flop do Facebook, os seus usuários, na maioria jovens, os que sustentam cognitivamente o furor das plataformas, são obrigados a desenvolver maneiras de inflamar esses espaços do ciberego apenas com a imagem, no caso uma foto que sintetize uma expressão de “si mesmo”. Somos esses jovens, trabalhadores que prestam “de graça” um serviço em troca da busca de imediatismo serotoninanado, e que depositamos nossos dados-afetos para a algoritimização e aperfeiçoamento das plataformas. Não é apenas a simplificação das emoções que estão em jogo no uso de emojis, mas também o fato de que ceder dados se transformam em uma espécie de obrigação, ou seja, de presença cotidiana e constante nas plataformas. 

Mas esse modelo de ciberespaço focado nas imagens fizeram do empreendedorismo de si uma exigência normalizada na internet. É o sucesso de poucos nesse espaço, que faz do capital especulativo sobre o modelo de suspensão do Estado, o horizonte de devir para os próximos anos. Eles não estão nem aí pra avaliar se ele modelo serve ou não. 

O Instagram hoje se parece muito com o Linkedin, pois a maioria de seus usuários usa o feed como se estivessem em busca de um ótimo emprego, esperando a recompensa pela melhor foto publicada, uma recompensa que nunca chegará. Os universitários mostram o que consomem em teoria, os artistas mostram sua intimidade. Quando todos nós agora nos vemos como possíveis influencers, é porque rompemos a separação entre valor monetário e vida. 

Toda essa demonstração é compreensível quando a questão são vendas, mas o sucesso do Instagram é a promoção de um estado de venda total da vida até mesmo para aquelas pessoas que nada tem para vender. Pois dependendo da foto que se posta, você é recompensado socialmente como se algo muito valioso tivesse sido comercializado. E nesse sentido não refiro apenas a padrões de beleza, mas a qualquer coisa, a mais estranha delas, pode ser monetizada pelas plataformas. Todos podem se passar por vendedores de sua imagem pessoal, do mais pobre ao mais rico, do mais bizarro, ao mais confortável aos olhos. É justamente esse estado de venda total que tornou o ciberespaço um lugar que substituirá o Estado em breve. 

Alguém sofreu uma violência racista ou homofóbica? “Faremos justiça aumentando seus números de seguidores!” Alguém sofreu assédio moral em alguma circunstância? “Resolvemos isso recorrendo às redes sociais!” 

Mas se as redes tornaram-se o espaço por excelência do intelecto geral, a informação enquanto produção imediata das redes técnicas como pensava Marx e Guattari, elas são a transposição dos restos do pior da função-sociedade em separação do Estado. Por isso a internet é o tribunal de opiniões, ofensas e violências psicológicas, tanto da esquerda politicamente correta, como da direita ou da extrema direita reacionária. É na ausência de algo maior a quem devemos responder que buscamos na liberdade infinita do ciberespaço exercer o julgamento e o cancelamento de alguém como maneiras fazer “justiça”, ou usar do anonimato para ofender e discriminar pessoas. Nesse, sentido as plataformas manuseiam o desmoronamento estrutural projetando essa “sensação de liberdade” na internet como a porta de entrada no mundo que o cibercapitalismo está gestando. 

“Denuncie as fotos que você não gostou, as que mostram violência ou nudez !” Ou seja, faça a gestão do ciberespaço, literalmente trabalhe para o Instagram melhorar o mundo. Mas agora que o ciberespaço é o lugar da vida em eterna produção de dados informacionais para o capitalismo de plataformas a sensação de trabalho é generalizada nas redes enquanto produção de imagem de si. Empresário, ativista, feminista, lgbtqi+, sexualmente instável, ativamente amoroso, negro, branco, intelectual, rico, pobre, tudo é possível de ser abstraído na tela do smartphone para monetização.


   Agora que a sociedade vive o seu ápice de otimismo cruel e felicidade pública pelas redes sociais, o que resta para o pensamento crítico? Afinal, quando estamos trabalhando em um empresa, a ordem é: mantenha a calma, e evite desavenças. E agora que o projeto de democratização da internet resultou apenas em impor goela abaixo qualquer informação sobre o outro como regra de convivência? Agora que o bom senso é uma espécie de ditadura libidinal  onde o politicamente correto molda a subjetividade a níveis de um positivismo augustecomteano que expele qualquer conflito, como existir quando ainda era o conflito de ideias que fazia alguma coisa caminhar? 

Afrorecusa: a revolução é ainda trabalho!

Breve comentário sobre desamparo e afropessimismo.

A fantasia ideológica transforma o desamparo em uma identidade. Para Zizek, o que da liga ao socius é o gerenciamento constante desse desamparo fundante dentro de regimes simbólicos, portanto, de ordenamento da realidade que se sobrepõe ao estado de fratura inaugural à experiência “humana”. Nascemos desamparados, e aos poucos vamos ordenando o nosso lego relacional. Acredito que esse ponto é crucial para entender sobre a ótica de Zizek, que a sociedade é um inconsciente que trabalha para dar sentido e inteligibilidade ao lugar de “cada um”. Mas isso não se refere apenas aos lugares que ocupamos nos regimes simbólicos da família ou da cultura, mas também da própria política.

Ao pensarmos com escopo conceitual afropessimista de autores como Jared Sexton, Fred Moten, ou Frank Wilderson III, a questão do desamparo ganha outras nuances. Quando Zizek pensa o dia depois, momento em que deveríamos fazer o uso material da ideologia para sustentar o fora de lugar que se instaura após uma revolução ou levante popular, a qual desmanchará as identidades constituídas, ainda idealiza um Lugar, mesmo que o evento seja de ordem insignificante e sua passagem de A a B é sutil, quase imperceptível.

Me parece que ainda há em Zizek, um engajamento com a ordem cívica do mundo na passagem de A a B. É aí que o afropessimismo administra de modo diferente o desamparo. Para esse metacomentário, no qual não há uma supremacia branca oprimindo, mas um desejo anti-negritude operando libidinalmente desde o evento racial, o desamparo não se completa nem nas políticas representativas, tampouco nessa passagem “sutil” de A a B, a qual recobriria de função cívica novamente as pessoas negras, mesmo após uma “revolução”. O lugar seguro da identidade, é por essência para o afropessimismo, administrado pelo inconsciente colonial, no qual livrar-se do desamparo é incorporar um ideal de completude e definição simbólica. Mas o afropessimismo ao encarar a superfície quebrada, percebe que ordená-la não estará disponível da mesma forma para todos, pois a anti-negritude impõe sobre o real das pessoas negras, a repetição do encontro com a forma indômita do desamparo, sem que se possa, ao contrário das pessoas brancas, tecer uma agência sobre ele.

Nesse sentido, estar fora do lugar (que não é o mesmo que estar fora da ideologia, como aponta Zizek) é o mesmo que tecer uma ética da fugitibilidade, tanto da crítica, como da coalizão, ou de um nós que estaria constantemente costurando uma aliança com o socius, afim de potencializar o lugar do desamparo enquanto uma ponte política com a incerteza da não completude.

Nas superfícies quebradas: aceleração e fascismo na escola de artes. Parte I

 Escrito para colegas professoras e professores de artes.

Quando a identidade se desfaz, o que fica no seu lugar?

   A escola é um território de apostas. De muitas apostas. Um lugar de investimentos libidinais de todas as espécies, onde alguns tendem a unificar nossos sonhos em torno de uma ideia de civilização, que faça jus a sua função de educar e de tornar funcional o movimento da vida, e outros, de possibilitar a construção de um sujeito consciente de sua localização histórica, econômica, e cultural.

     A partir dos anos 60, em função da presença da teoria crítica, a escola passa a ser almejada enquanto um espaço de emancipação social, disputada pelas ideologias de esquerda ou libertárias, que apostaram na retórica da utopia a fim de espalhar a esperança num mundo melhor. E depois, nas últimas décadas, com a ascensão do capitalismo tardio, de torná-la um laboratório para um mundo neoliberal, no qual o sujeito chegaria a um ponto onde seria possível esquecer até mesmo da instituição-escola como alicerce organizador do socius. A escola, nesse sentido, foi por muitas vezes um lugar de apostas e de disputas discursivas e afeto-cognitivas para o lado A ou B, entre o projeto X ou Y. No entanto, intuo que não seja mais possível pensá-la unicamente em planos de análise até então já descritos. Sugiro, que atentemos às metamorfoses que a subjetividade vem traçando nos últimos tempos, que afetam a escola e os modos como nos relacionamos com a mesma desde uma perspectiva docente.

     Nas intersecções desses processos, durante muitos anos as teorias críticas oriundas do marxismo, lançaram sobre a realidade projetos de emancipação do sujeito, baseados em análises de ordem estrutural, econômica e classista. A partir desse recorte a escola precisaria ser reformada de acordo com as demandas desse sujeito, ou de sua idealização, criadas a partir desse escopo conceitual. Posteriormente, as teorias pós-críticas, que englobam as teorias feministas e multiculturalistas, ou comumente chamadas de pós-modernas, apontaram a insuficiência dessas abordagens através da realocação desse sujeito em outras esferas de sua existência. Foram então acrescentadas as questões relacionadas à raça, gênero, sexualidade, localização da fala, etc. É importante ressaltar que as estratégias conceituais pós-modernas na educação, não abandonaram o ideal de um sujeito possível de liberar-se de um plano de injustiças, sejam elas do patriarcado, da moral religiosa judaico-cristã ou das sufocantes estruturas de poder. Em ambas invasões à escola, tanto a do terreno crítico como aquelas da especificidade pós moderna, projetaram um ideal de liberação construído nas premissas de uma Identidade.

     Apostar no conceito de uma Identidade1 como a ligadura do “possível” necessária para as mudanças sociais, cria uma ideia na qual bastaria a adesão à Identidade A ou B, e uma respectiva auto-localização nas zonas em fluxo do socius e das políticas de Estado, para surgir uma espécie de start causal entre o sujeito e os planos de opressão. Mesmo que isso tenha funcionado até então, numa espécie de harmonia relacional que ativa uma identificação com a política através de uma caixa de questões restritas a grupos, não é mais esse o cenário que poderíamos partir para análises mais coladas aos tempos atuais.

   Nesse sentido, intuo estarmos vivendo um outro momento, onde a coexistência entre insuficiências conceituais e a ausência de novas práticas políticas tornam muito difícil a apreensão dos desmoronamentos da escola como se via até então, evitando a formulação de uma superfície problematizadora que atualize novas abordagens críticas para a educação. No decorrer do texto, abordo algumas tentativas nesse sentido, porém me atentando a um recorte estético como plano de ação. Mas antes disso, será preciso compor uma cena que relembre um acontecimento importante nesse caso, e que pode ajudar a entender alguns dos nós a-significantes que estão a compor algumas metamorfoses nos mundos até então. A cena é: a eleição presidencial de 2018.

    Nesse cenário foi possível perceber que as velhas apostas na Identidade como algo unificante e portanto capaz de responder a uma demanda comum, seja ela qual fosse, se desfizeram. Nas eleições presidenciais de 2018, as classes majoritariamente ricas ajudaram a eleger um presidente explicitamente fascista. No entanto, o que não esperávamos era que suas ideias homofóbicas, racistas e sexistas ganhassem apoio de uma parcela significativa das comunidades pobres, de uma parcela de indivíduos lgbts, de mulheres e inclusive de pessoas racializadas2. Uma das causas que podem ser atribuídas para responder a isso é que os projetos de emancipação da esquerda, assim como os mínimos direitos conquistados nos últimos anos, deixaram de ser parâmetros na memória daqueles que, em hipótese, mais se beneficiaram dos mesmos. E que uma espécie de ação reativa fez com que essas subjetividades se identificassem com o projeto extremo conservador da ultradireita brasileira. Nesse sentido, o lugar garantido pela Identidade X ou Y e sua correspondência aos projetos de liberação se desmancharam. Acredito que esse argumento é válido, no entanto, não foi uma falha de memória quanto aos programas sociais do passado que elegeu Bolsonaro.

      É como se no caso das eleições de 2018 pudéssemos observar a migração do desejo até algo radicalmente distinto do que se havia vivenciado nos últimos anos. Mas quais ligaduras, além da Identidade emancipatória, se desfizeram para que um fascismo 2.0 ocupasse as subjetividades no contexto das eleições, a ponto das mesmas negarem a hipótese de um projeto de emancipação social, firmando uma disforia reativa?

    Foi possível observar que o conceito de emancipação social3 através da Identidade, seja ela pobre, rica, negra, de cor, lgbt, feminista ou indígena, era bastante frágil no que se referia a um “nós” ou a um “estamos juntos porque somos iguais e viemos do mesmo lugar”. Ou seja, o sonho de uma possível liberação através de uma Identidade específica não se realizou. Ao contrário, houve um clamor popular cacofônico de falas localizadas nos setores mais pobres que resultou num apoio estrondoso a um partido de legalidade duvidosa. Ainda se pode acrescentar à cena em questão uma série de discursos que pediam o retorno da Ditadura Militar, fazendo uma apologia direta à tortura e a perseguição. Foi como se um distúrbio em ressonância cibertemporal aniquilasse as experiências de um passado recente, se colocando em uma situação flutuante, na qual o presente se viu povoado radicalmente de imagens até então sucumbidas há tempos.

Rafaël Rozendaal - 2012

“Everything Dies” de Rafaël Rozendaal no Kunstverein Arnsberg 2012

     Quando a Identidade se desfez, nesse caso específico, a ponto de ressonar uma política reativa regida por uma bússola moral, foi a experiência subjetiva que se dissociou daquilo que lhe acontece em um nível concreto. Quando ampliamos o nosso horizonte para abranger a superfície topológico-relacional4 do mundo tal como configurado na atualidade, podemos constatar que encontram-se em constante desmoronamento as potências coletivas de criação e cooperação, que nada mais são que condições para criação de uma hipótese comum, da qual podem emanar condições para insurgir-se e ao mesmo tempo fortalecer-se. Sendo assim, a escola como território relacional com a cidade, a cultura e suas formas de vida, em momento algum se demonstrou isolada nesse processo político, estando a mesma colada ao atual desmoronamento dos sonhos de liberação.

    Mas essa confusão das fronteiras não pode nos enganar a ponto de afirmarmos que uma escola pós-crítica se consolidou, visto que durante muitos anos o pós-estruturalismo tenha desejado alguns desmoronamentos (DELEUZE, 2003, p. 170), como livrar-se das duras estruturas do poder e firmar uma desconstrução moral liberativa, questões recorrentes em autores como Foucault, Deleuze e Derrida. Se a identidade de classe desmoronou, junto com os desejos do marxismo, das utopias e do Sujeito de Estado, foi devido ao fato que as formas de vida contemporâneas estão submetidas a novas ordens de organização subjetiva, na contramão das instituições e localizadas em uma zona de indiscernimento, onde a aceleração capitalista coloniza uma parte significativa das vias de expressão e criação de possíveis para além do seu próprio axioma.

      Se as formas de vida contemporâneas têm uma tendência a novas ordens de organização subjetiva, criando uma espécie de negação às instituições, e buscando linhas de fuga contra as ideologias unificantes ao mesmo tempo que tece zonas de indiscernimento5, onde a identidade tende a perder uma existência concreta, como criar estratégias didáticas à altura da complexidade atual dos mundos que atravessam a Escola?

        A cibernética nos anos 70, ao derrubar os muros das fábricas, adentrou em todo o espaço do social. Mas Marx já havia feito um diagnóstico muito anterior a esse acerca da informação maquínica enquanto uma dimensão autônoma reterritorializada em forma de produção na dinâmica do capital. Atualmente não é mais possível afirmar que a democratização da tecnologia não tenha interferido no modo como nos relacionamos com a informação, a mobilidade dos corpos, e portanto no como experienciamos a vida. Na escola isso não é diferente. Mas é preciso distanciar-se tanto das leituras que exaltam as tecnologias como algo indispensável no processo educativo, como de discursos que descartam o uso da mesma. A tecnologia existe como prótese moldável pelo uso, e sua influência sobre nossas vidas é extremamente relevante no contexto em que nos encontramos. O filósofo Paul Virilio, no conjunto de sua obra, lançou as bases de algo que ele denominou de dromologia ou “ciência da velocidade”. Para Virilio (VIRILIO, 1986, p. 55) o que define o nosso mundo não é o reino da mercadoria ou das imagens espetaculares, mas dos ritmos acelerados das bombas de informação e guerras semióticas. Sendo assim, nossa experiência com o tempo modifica-se completamente na medida em que a tecnologia altera os modos como apreendemos o tempo.

    O xamã yanomami Davi Kopenawa em seu livro A queda do Céu (KOPENAWA, 2015, p. 375), cartografa de modo aberrante o modo como nos relacionamos com o tempo nos dias atuais. Para ele, vivenciamos um tempo de ausência e esquecimento, onde a memória é literalmente curta devido ao fato de estarmos o tempo todo pensando em nós mesmos. Kopenawa ataca a nossa ausência de relação com os mundos. Todavia, diria que estamos nos relacionando com “as coisas”, mas teríamos perdido a capacidade de apreensão dos ritmos e dos tempos, impondo o mundo informacional como única condição de existência. É a nossa própria imersão nos ciclos de aceleração da vida que apagaram as fronteiras do passado, presente e futuro, assim como o pertencimento à identidade X ou Y. Vive-se um nomadismo ausente de experimentação onde não podemos mais nos localizar. Se o fluxo do tempo é acelerado pelas tecnologias e pelo acesso desenfreado a bombas de infos instantâneas, tal como coloca Virilio, rápida também é a passagem da subjetividade pela multiplicidade de experiências possíveis ofertadas pelas telas informacionais, sem que se possa construir um processo vital em conjunto com as forças que encontramos.

    Nada mais de processos ou sucessões físicas, e sim intensa conexão polifásica, o que confirma o desprendimento contemporâneo em relação às formas de vida cooperativadas ou interligadas por processos topológicos comuns. Nesse sentido, a cena das eleições de 2018, citada na primeira parte do texto, e sua capacidade em esculpir como possível apenas um estrato do presente, convocando a nostalgia autoritária da ditadura militar, ganhou respaldo efetivo pelos modos como experienciamos nos últimos anos a tecnologia, na medida que a mesma é absorvida enquanto mero dispositivo informacional.

As referências bibliográficas da primeira parte do texto serão anexadas na sua segunda parte do mesmo.

1 Para uma abordagem precisa do conceito de identidade, ver: Stuart Hall – A identidade cultural na pós-modernidade. Lamparina, 2014.

2 Fonte: El País, Por que 29% dos Lgbt´s votam em Bolsonaro? https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/27/opinion/1540592921_823943.html; Homossexuais, negros e pobres votaram em um candidato que os considera inferiores ou os odeia https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/09/opinion/1539102091_173002.html; Ambas acessadas em 02 de Abril de 2019.

3 Karl Marx no ensaio de 1884, Sobre a questão judaica (Zur Judenfrage) é um dos primeiros pensadores a discorrer sobre esse conceito. O qual posteriormente, ganhou ênfase em quase todas as ciências humanas, principalmente na Sociologia e na Antropologia.

4 Me refiro aqui a uma espécie de convergência ou unidade comum em blocos de sentido heterogêneos.

5 Um fenômeno recente sobre este tema são os protestos dos Coletes Amarelos na França em 2018, que durante as manifestações ocuparam as ruas com discursos sem pretensa unidade, e que vão desde a pressão por uma política anti-imigração até uma crítica radical ao neoliberalismo.

É-VIDENTES : NOTES POUR LA FIN D’UN MONDE

E

Em Janeiro de 2020, o meu texto Notas E-videntes para o fim de um mundo foi publicado na revista TRUNOIR de Paris. Segue a versão em francês do mesmo. 

A tradução é do D.D Menez

 

UN TEXTE DÉBORDANT À PROPOS DE LA RÉCEPTION DE LA PENSÉE QUEER AU BRÉSIL, DE LA PRODUCTION D’ENFANTS ET DU QUEBRANTO.

publié en Janvier 2020

On aurait tort de croire comprendre ce document immédiatement. Car si les mots, les institutions ou les pratiques sont les mêmes, la situation elle, nous est largement inconnue.
Colosse aux deux visages le Brésil est de ces pays que l’on ne peut pas décrire dans l’unité, le texte y reviendra à plusieurs reprises. Sa première face est celle contre laquelle ce texte a été écrit. Pendant plus de quinze ans, le pouvoir a été aux mains des progressistes (de la gauche au centre droit). Ils ont mené une politique de reconnaissance et d’intégration des minorités sexuelles. Celle-ci fut construite avec des institutions comme l’université qui abandonne sa fonction critique pour assurer et construire la place de chacun dans le grand bal social ou comme la justice qui reconnaît de plus en plus de droits. Le texte s’attaque à une logique qui va de la production à la reproduction.
Très inspiré par le féminisme des années 70, il construit un réquisitoire contre la procréation et les désirs d’enfants afin d’amener une interrogation radicale sur l’humanité, l’avenir et la fin du monde. Ce texte est enfin un appel à la dissidence sexuelle.
L’autre visage du Brésil, est celui que nous connaissons tristement depuis l’arrivée au pouvoir de Jair Bolsonaro, celui des ratonnades anti-lgbtqi quand il ne s’agit pas de meurtres. C’est le Brésil évangéliste et anti-avortement, le Brésil de la censure. Le texte fut écrit en 2018, avant l’accès de Bolsonaro à la présidence de la République toutefois, il essaime des éléments faisant entrevoir cette nouvelle réalité du Brésil.

Le mauvais augure est une magie des présages. Sa force réside dans l’intuition particulière, dans l’acuité de ce qui échoue et ne se passe pas comme prévu. Sentir le mauvais augure d’une chose, d’un flux ou d’un corps, qu’il soit fleuve, pierre ou fougère des marais, c’est d’abord entrevoir sa matière vibrante. Celle à laquelle je me révèle, à laquelle je suis présent. L’augure se donne en amont des évènements. C’est une sensation pénétrante. Et lorsqu’il s’agit de politique, elle peut nous éviter bien des naufrages.
Le « quebranto » [1] se loge dans les parties du corps infectées par le ressentiment et les problèmes d’ego. L’être ensorcelé ne désire plus qu’une chose : que tout se fasse Ordre.

Mettre-en-évidence (E-videnciar) [2] est l’affaire d’une sérieuse analyse animée par l’impatience d’en découdre. C’est-à-dire de mettre à mal l’espace social pacifié qui de soft power en récupérations construit une politique de vampire.

À PROPOS DE L’ABANDON DES MOTS ENSORCELÉS

Au début des années 90, le mot queer apparaît au Brésil comme un nouveau champ d’étude universitaire. Le terme est introduit par des professeurs liés aux cultural studies (Tomaz Tadeu de Silva, Guacira Lopes Louro). Leur intérêt se porte sur la pensée critique nord-américaine en train de se reformuler à distance des vieilles conceptions marxistes du monde. La théorie queer devait annoncer l’arrivée de temps nouveaux. Elle promettait de sortir l’académie brésilienne de l’inertie et de la rabâcherie conservatrice qui la caractérisait.
Il semble toutefois qu’une erreur de traduction culturelle ait modifié la trajectoire du projet queer brésilien. Ce qui amène à distinguer queer theory et teoria queer comme deux choses tout à fait distinctes. La première, déployée dans l’univers de sens anglophone, a pu stimuler une certaine radicalité existentielle contenue dans le concept lui-même et son contexte d’apparition.
La seconde, dans sa tentative de transplantation en langue portugaise, se rapporte essentiellement à l’existence des corps déviants et anormaux comme à des objets d’analyse. Il s’agit donc d’une théorie sans la pratique. Il va de soi qu’un mot que l’on emploie ici, au Brésil, n’a pas forcement le même sens que lorsqu’on l’utilise ailleurs, comme là-bas aux États-Unis.
La traduction d’un contenu révèle souvent la prétention à l’universalité dissimulée dans l’acte de traduire.
Au Brésil, le queer a pu se tailler une place dans l’establishment académique. Les premiers à introduire la théorie queer en nos terres tropicales, furent des chercheurs et des chercheuses universitaires issus de classes privilégiées. Ce genre de critique commence à revêtir une certaine importance comme lors d’une rencontre intitulée : « Défaire le genre » [3] durant laquelle Judith Butler fut questionnée par la travailleuse du sexe et travestie Indianara Siqueira. Elle l’interrogeait sur sa position privilégiée et somme toute passive concernant la transgression du genre d’un point de vue pratique. L’écart entre la vie et la théorie nécessite d’être questionné. Particulièrement lorsque des institutions comme l’université produisent des manières de penser, d’être et de se lier.
Au début des années 90, les choses étaient encore différentes. Malgré son caractère de classe bien marqué, la théorie queer semblait moins présomptueuse, moins branché et n’était pas vu d’un bon œil. Peut-être gardait-elle quelque chose de trop radical, d’impur.

Puis voilà qu’à la fin des années 2000, la vision académique du queer s’est abîmée dans son rôle de prêt-à-penser des esthétiques existentielles. Du Foucault et du Deleuze à gogo, incapable de soutenir le poids et le risque d’une vie marginale. Connaissance froide face à son objet de recherche. Le vision queer brésilienne, alimentée par la psychanalyse a effectué un travail d’incorporation sociale des singularités et de tout ce sur quoi elle a posé ses yeux de Méduse.
Elle a compris qu’il existait un sujet de la dissidence sexuelle, localisable, et qu’il fallait que celui-ci soit inclus dans la société. L’identité et les politiques de reconnaissance furent les véhicules d’une telle opération. La vision queer académique a de facto pris une consistance politique, avec son style et ses petites luttes de capital symbolique. Le queer est devenu la caution progressiste de la gauche.

L’identité et les politiques de reconnaissance sont devenus plus séductrices ces dernières années, aussi bien ici que dans les pays privilégiés, dû au fait que l’université s’est imposée comme seul espace possible où la transgression puisse exister. C’est également le seul espace où l’on puisse lutter pour une vie moins subalternisée. Ce qui n’était pas queer l’est donc devenu. Tout ce que l’on nous a fait bouffer dans les programmes de maîtrise et de doctorat, c’est ce que l’on a fini par nous faire chier dans les beaux vases du progressisme. Perdant au passage la puissance monstrueuse de ce qui un jour nous avait paru menacer l’hétéronormativité.
Aujourd’hui, ces forces se trouvent endormies par le gaz de la visibilité et de la célébrité, enfermant l’expérience de la dissidence sexuelle dans une fonction capitaliste d’ordre culturel. Il n’y a qu’a regarder, pour s’en convaincre les séries-télés Netflix ou les nouveaux groupes de musique pop. Le queer se réduisant à une bibliothèque esthétique dans laquelle piocher des éléments.

Le mauvais sort jeté par l’institution sur le queer renvoie à l’idée de salut défendu par la gauche (qui a promis la rédemption des singularités, la possibilité de les sortir de la boue) à travers la conquête du diplôme. Or, les compensations offertes par l’entreprise-université pour nos corps vulnérables nous a ôté toute combativité. Dans ce processus d’envoûtement (de « quebranto »), nous perdons les espaces de complicité, d’organisation radicale, du pouvoir de répondre à la mort. Laquelle, dans ce contexte, n’est pas que symbolique, mais aussi très matérielle. Un mouvement moléculaire fatal qui étouffe le désordre des trames affectives et collectives des corps monstrueux.

Plus on se confesse sur le sexe, plus grand est le contrôle exercé sur les pratiques sexuelles. Nouvelles identités, nouveaux territoires de consommation. Toute société qui nous convie à confesser quelle sexualité est la nôtre, impose un contrôle sur les corps. En effet, les révélations du sexe sont hautement lucrative pour le capital.

La pensée décoloniale qui se penche sur le sort de la théorie queer sous les tropiques, oubli qu’une décolonisation post-queer ne se fait pas seulement en troquant un mot anglais par un autre moins nord-américanisé (où queer deviendrait kuir). Elle doit se construire en détruisant le progressisme.
Les bons profs queers brésiliens et quelques activistes fameux ont assumé le rôle de « capitaos do mato » [4] en capturant l’animalité des expériences divergentes pour la transformer en un fantasme inoffensif, atténué de sa folie et séparé de sa puissance perverse.

Accroître davantage la force d’effondrement requiert une réflexion sur la vie crue, dont les formes flirtent dans l’ombre avec la sourdine du monde. En y faisant peser le poids de nos existences criminelles.
Ce sera fabuleux.

LE PIED SUR L’ACCÉLÉRATEUR : VERS LA FIN DU FUTUR REPRODUCTIVISTE

« Est puissant celui ou celle qui sait danser
avec les ombres, et qui sait tisser des relations
intimes entre sa propre force vitale et autres prisons
de forces toujours situées quelque part,
part-delà la surface du visible. »
Achille Mbembe

Le corps n’est pas seulement investi par la sexualité, il est construit, matérialisé à partir d’un sexe produit par le discours. Nos corps sont le produit entendu de la sexualité et du discours. Les créations de corps sexués insérés dans un ordre libidinal socio-historique sont définis au travers de ses pratiques discursives et normatives. La notion de sexe biologique n’a de valeur et d’importance qu’à l’aune du projet Humanité.

Le sexe en tant que chose naturelle, l’instinct maternel et l’hétérosexualité sont trois essentialismes qui opèrent comme régulateurs d’existences. Régulation façonnée et répétée sans relâche afin de perpétuer l’institution de l’Humain et par l’exclusion de tout ce qui n’y cadre pas.

Il existe une richesse infini de manières d’apprendre à vivre les sexualités, les genres et les corps. Et tout autant, de manières de se rendre incontrôlables, ingouvernables à l’entreprise spectacle de Normalisation-du-Sexe-pour-le-Futur. La sensibilité politique de l’underground contrasexuel, par exemple, démontre un geste anti-héroïque extraordinaire sur la question, qui fout en l’air le continuum libidinal de la modernité : le glam et la joie d’une (V)IE [5] sans enfants. Cette sensibilité pointe un des problèmes généraux de la modernité : la fertilité [6]. Plus les flux capitalistes s’intensifient, plus la fertilité en pâtit. L’expansion illimitée des métropoles, l’individuation et l’estime de soi délirante, ne sont que quelques-unes des façons de mourir démographiquement.

Il ne faut pas croire que la-Ligue-du-Sexe-Normal-pour-le-Futur ne soit pas au fait de ce qui menace partout de craquer. Plus s’accélère le désenchantement général, plus elle s’empresse d’imposer sa vision du monde en persécutant toutes formes de vie étrangère au contrat de natalité (c’est-à-dire contrat hétérosexuel en tant que module opératoire du capitalisme).

Comment faire pour donner le coup d’envoi à une politique concrète de sabotage de la machinerie reproductive de l’humanité ? Nous sommes en 2018 et le Brésil voit en ce moment-même s’intensifier l’emprise d’un pouvoir théocratique parallèle, à tendance évangélique, qui opère depuis l’intérieur même du gouvernement. Rien de nouveau sous le soleil des tropiques où même les présidentes de gauche sont contraintes d’assister à l’inauguration du plus grand temple évangélique d’Amérique latine [7]. Rien de nouveau donc pour nous qui sommes, depuis des siècles, des cibles de choix aux côtés des corps biopolitiquement produits comme femmes et comme trans. Menace irréductible du futur, nous sommes immédiatement la négation empirique de l’avenir, aussi bien par nos façons de vivre la sexualité que par nos luttes incessantes pour la libération des pratiques abortives.

Le monde dystopique de Margareth Atwood ne serait-il en fait qu’une simple exagération de ce que nous voyons se déployer sous nos yeux ? Dans la servante écarlate [8], la narratrice met beaucoup de temps avant de comprendre la mesure de l’évolution réactionnaire des rapports sociaux. C’est dans un contexte de crise générale de la fertilité mondiale que l’extrême-droite s’empare rapidement du pouvoir et impose des mesures visant au contrôle absolu des corps des femmes. Or il y a longtemps, que la réalité dépasse la fiction. La situation est pire encore lorsque l’on regarde vers la Tchétchénie, où dans certaines régions du Moyen-Orient, comme l’Egypte, où des homosexuels sont pendus à la lumière du jour en place publique. Pas besoin d’aller chercher l’horreur ailleurs. Même au Brésil le travesticide ne semble plus susciter la moindre étincelle de résistance, pas même parmi la dite « communauté LGBTQ ». Dictature ou démocratie, dans tous les cas, nous continuons de mourir et notre sang vient tout juste remplir les calculs des statistiques d’un monde absurde.

La baisse tendancielle des discours combatifs dans les luttes pour la légalisation et la diffusion des pratiques abortives, ces dernières années, concorde parfaitement avec le progressisme de gauche au pouvoir. Les mouvements féministes et LGBTQ se complaisent dans la négociation avec le pouvoir (pinkwashing) dans le but de réintégrer les singularités marginales, mais aussi dans le but d’intégrer ce pouvoir, d’en faire parti. C’est un jeu à double-tranchant, car tandis qu’il procure à certain.es des améliorations concrètes, il produit en même temps un mirage, une impression que ces nouvelles valeurs se sont imposée dans la société. Or cette idée, que les lois transcendent la société, cette croyance en l’État de droit ne tient jamais compte de la multiplicité du réel, ni de ses propres conditions de possibilités. Combattre l’incorporation de la singularité, c’est laisser émerger les corps retirés de la circulation par le poids de la représentation. Nous ne serons jamais tous invités à boire du champagne aux sommets, nous sommes beaucoup trop nombreux pour ces espaces éternellement trop petits.

Au moment d’écrire ce texte, un énième projet de lois nous tombe dessus, prétendant en finir avec toute possibilité légale d’interrompre une grossesse, y compris en cas de viol. Il est é-vident que dans les années à venir, c’est ce genre de mesures qui resserrera l’emprise du pouvoir sur les corps. Particulièrement autour des corporéités hétérogènes qui défient les plans de la modernité par le ventre ou par l’anus.

Le projet de Défense-du-Futur par l’obligation de la procréation est un élément fondateur de la modernité colonialiste. Or, la reconduction éternelle du même est un mur sur lequel viennent se briser les discours d’égalité politique, d’inclusion et de représentation et qui dévitalise la politique des coups rendus.
Nous savons bien que les attaques ne cesseront pas. La persécution ne peut être amoindrie par des arguments qui évacuent la présence ici-même de tous ces morts qui nous précèdent et qui furent tués au nom du Futur. Plusieurs diront qu’il en vaut mieux ainsi, empêchant de ce fait, depuis leur position de bonheur privilégié, toute conspiration politique.

ÉTHIQUE DE LA GRÈVE HUMAINE

Dans son livre No Future, Lee Edelman propose le terme de queerness comme le lieu ou réside le refus de l’ordre social. Une négativité qui résiste à l’hétérosexualité comme régime politique. Le concept de queerness est un rejet actif de tout espoir. Un lieu ou le pouvoir n’est plus incarné dans les corps, un lieu ou sans proposition, irréductiblement atypique, singulier et autonome.
Comment tisser les lignes d’un devenir monstre [9] ? Une politique des écarts et des outrages rendant caduques les notions de bien et de bonne conscience des êtres de droit.

Même face aux plus destructrices des catastrophes telles que Tchernobyl, Fukushima ou Mariana, l’humanité ne cesse de se reproduire. Mise devant l’explosion démographique galopante, comble de la modernité qui voue la terre aux monocultures de toutes sortes, à l’extractivisme débridé et à la production quotidienne de milliards de tonnes de détritus, l’humanité ne cesse pour autant de produire à tout vent. L’anthropocène qui inscrit la présence désastreuse de l’humain sur terre ne semble déranger personne. Parallèlement à ce besoin de production excessive, le pouvoir opère sur le désir d’accomplissement de chaque être par la production d’enfants. Ce n’est pas par hasard si les politiques anti-avortement se font plus dures chaque jour, aux quatre coins de la planète, alors que les ambitions génétiques de conservation de conscience se propagent à un rythme aussi inquiétant.

L’enfant qui naît, incarne la réalisation de l’ordre hétéronormal et la perspective de futur de la race humaine. Il est ce qui prévaut sur n’importe quel désir. Insatiable soif de futur, soif de se reproduire. L’enfant apparaît comme cet emblème à valeur incontestable du futurisme, celui qui impose un ordre du monde auquel il devient impossible d’opposer des subjectivités contrasexuelles, ou une quelconque proposition politique visant à stopper la course du navire reproductif vers le naufrage final.

Au milieu de cette hégémonie, il devient primordial d’élaborer sans plus attendre une politique de la Grève Humaine. C’est dans la reproduction humaine du « sujet » hétérosexuel que réside le chemin menant tout droit au monde straight de la production.
Les sexualités et les formes-de-vie stigmatisées pour leurs écarts au mandat hétéro-reproductif menacent de dissoudre le contrat social. L’insistance provocatrice, l’entêtement à semer le trouble et à offenser l’ordre social, bien que conduisant souvent aux travaux forcés dans le bagne de la culture hétéro-reproductrice, peut aussi être considérée comme un pari.

Carla Lonzi, féministe italienne des années 70, a traversé l’autonomie italienne en y construisant des concepts clés comme celui de GRÈVE HUMAINE. « Nous ne serons ni vos mères, ni vos épouses, ni vos filles : détruisons la famille ! » : tel était le cri retentissant dans les rues d’une Italie littéralement ensevelie sous les pavés de l’insurrection. Tout en revendiquant des droits, on y affirmait bruyamment l’étrangeté radicale vis-à-vis du vieil ordre social. L’effervescence féministe italienne des années 70 a entraîné aussi bien des femmes cis que des trans, des homos et lesbiennes et aura donné corps aux manifestations de ce qui, dans le contexte, a pris le nom de grève humaine. Il y a là, dans cette passerelle entre deux époques, un moment où le féminisme aura su pousser jusqu’au sommet la vérité affirmant que « la liberté, ça commence par le ventre ».

La grève humaine renvoie à la question du Comment faire ? Question d’ordre éthique dans une époque où les limites entre le travail et la vie n’ont jamais été aussi troubles. L’ouvrage Foucault para encapuchadas pose la question suivante : « Qu’en serait-il de ce monde si toute affirmation ne tenait à la mise en rapport de chaque chose par la seule force admise – car la plus contrôlable – d’entre toute les formes de socialité, c’est-à-dire : le travail ? ».

Bloquer la machinerie de la production humaine suppose la destruction de l’hétéro-empire, lequel gère et digère, réintègre et défèque tout ce qui vit, tout ce qui existe et tout ce qui porte en soi une quelconque puissance. Tout y passe, car tout est productif, tout est produit et à la fin tout est commercialisable. Dans Foucault para encapuchadas, « Comment faire ? » est une question technique, qui requiert un certain art capable d’élaborer de nouveaux processus de subjectivation, de faire surgir de nouvelles formes-de-vie, de nouveaux devenirs. La grève humaine survient en réponse à la déchéance du vieux sujet révolutionnaire qu’était l’ouvrier viril. Il ne s’agit plus désormais d’attaquer les relations de production sans attaquer, du même coup, les relations affectives qui les soutiennent. Comme le rappelle Silvia Federici : « Ce qu’ils appellent amour, je dis que c’est du travail mal rémunéré [10] ».

La grève humaine « suppose un bousculement des familiarités hétérosexualisantes, c’est-à-dire : l’art de fréquenter en soi-même l’hôte le plus inquiétant (notre Mr Hyde à tous, notre Mystica [11]). La grève humaine suppose de faire tourner à vide les dispositifs afin de rendre à la présence les corps mutilés par l’empire hétéro, les rendre à l’amitié politique. Comment faire ? Comment rendre caduques les dénominations « masculines » et « féminines » qui se conforment aux catégories d’assignation biopolitique « homme/femme » ? Les codes de la masculinité sont susceptibles de s’ouvrir pour que nous puissions opérer en eux une sorte de gender-hacking perfo-prothésica-lexical par l’utilisation de jeux de langage échappant aux marques de genre, ou qui au moins savent les altérer ; propager jusqu’à l’absurde les anomalies psychosexuelles. La mise en scène de pratiques subversives des codes de masculinité et féminité à travers l’exploration et l’expérimentation des subversions sexo-génériques visent à déstabiliser les catégories hétérosexuelles du binôme. Renoncer au maintient des relations sexuelles naturalisantes hétéronormales rend possible la re-sémantisation et la déconstruction de la centralité du pénis et la critique des catégories d’ « organes sexuels » (n’importe quelle partie du corps ou n’importe quel objet pouvant devenir sex toy) : dégénitaliser la sexualité (qu’y a-t-il de plus sexy que de faire la sieste enlacées), séparer l’usage des plaisirs des formes de reproduction humaine (à laquelle nous avons renoncé il y a un bail), explorer et expérimenter d’autres usages des plaisirs (par exemple les pratiques de jeux de pouvoir consensuels). L’abolition de la pratique de la sexualité de couple, par les pratiques de plaisir en groupe avec des complices sexo-affectifs re-sémantise le corps comme barricade d’insubordination politique, de désobéissance sexuelle, de déterritorialisation de la sexualité hétéronormative, de ses régimes disciplinaires naturalisés et de ses formes de subjectivation en vue de la création subséquente d’espaces d’affinités anti-genre et anti-humains : il s’agit rien de moins que de détruire jusqu’aux ciments l’hétérosexualité en tant que régime politique. Tel est notre destin. [12] »

PRODUCTION DES EXISTENCES SAINES

« Dans le libre-marché, le marché est libre. Mais vous, vous ne l’êtes pas ».
Max Stirner

Aujourd’hui, l’ordre social sélectionne les corps en fonction de leur utilité. Il y a ceux voué à l’exploitation diffuse et ceux que l’on enchaîne à la promesse d’un futur. Le capitalisme a pour principe de produire, y compris les relations. Celles-ci sont donc toujours le fruit d’une inégalité, d’une exploitation. Le progrès, en tant que projet de la modernité coloniale agit en faisant le tri, en opérant des distinctions, en calibrant, en écrémant… Ce sont tout juste quelques enfants qui peuvent dès lors porter le futur comme leur propriété. Le futur leur appartient. C’est contre cette axiomatique répressive qu’une lutte peut à tout moment faire irruption : une lutte désirante pour la destruction de cette notion de futur propre aux existences saines.

En exploitant de la main-d’œuvre migrante et racisée et en détruisant le non-humain, le capitalisme détermine avec soin qui pourra tirer le fruit d’une vie séparée de ses conséquences mortifères. En plus de persécuter les dissidences sexuelles non-reproductives, la promesse du futur vise à retirer de la circulation toute une couche de corps excédentaires, asservis par le travail ou par des mécanismes de contrôle et d’enfermement. Toute prison vise à neutraliser les existences mises au ban du Futur.

Nombre d’entre nous sont derrière les barreaux. La lutte pour la visibilité les cache, les cachera toujours. Car la reconnaissance implique un corps et un discours intelligible et discipliné. Dès que nous pouvons produire d’une manière ou d’une autre, nous pouvons nous vendre, ne serait-ce qu’à prix d’esclave, pour trouver une place dans cette structure de production. Les prisonniers et prisonnières sont les maillons faibles de la lutte pour les droits, qui répugne aux plus gentils des politiciens LGBTQ, à la gauche culturelle, comme à la jeunesse militante des universités. Car la visibilité est strictement « mercadologique », exigeant sous ses projecteurs que tous correspondent à un certain type de fonctionnalités. En prônant une politique d’inclusion et une stratégie basée exclusivement sur la visibilité nous ne pouvons que nier tous les corps irréductible au capitalisme.

Depuis une quinzaine d’années, parler d’abolitionnisme pénal est devenu quelque chose de rare. Or, la construction de complexes carcéraux se multiplie, tout comme les moyens d’exterminer les communautés en rupture avec l’idée d’un futur planifié. Le néo-libéralisme aura réussi à capter toute forme d’opposition radicale qui prétendait encore lui résister. L’anti-racisme autant que le féminisme se sont vu réduire à des styles mainstream où sont répétés sans cesse les mêmes gestes de rébellion comme s’ils étaient inédits. Ce formatage du désir politique au travers du capitalisme annihile non seulement l’évidence d’un futur abolitif, mais impose aussi au présent une dégradation des possibilités d’imaginer des rébellions concrètes dans chaque sphère de la vie.

IMPURS-MUTANTS-MONSTRES

Il faut haïr le monde.
Notre haine désire la suspension du monde.
Faisons en sorte que le monde entier se détériore. Ainsi, seulement, nous pourrons penser de façon significative. Mais qu’il soit dit que la suspension du monde n’est pas une chasse des conditions de sa reproduction, ni une méditative rhapsodie des sensations. C’est la pensée qui se construit après la catastrophe du monde. Il ne s’agit pas d’un scénario de film censé nous apprendre les voies essentielles de la survie. C’est la machine de guerre d’une politique de la fin.

Les paris multispécistes ou multinaturalistes auront-ils la force de détruire les liens de sang qui font l’Humain, laissant le corps se perdre dans l’immense molécule que nous appelons Terre ?
Détruire l’image qu’ils ont fait de cet amoncellement de chair : « Je suis un homme », « Je suis une femme », « Je suis hétéro », « Je suis homo », sont des états subjectifs rendus possibles par la fiction sociale et les dispositifs de contrôle. Il ne s’agit pas de prendre le pouvoir constitué, mais de fendre dans les corps les ordres du passé.
Je crois qu’il n’y a que la fin du monde tel que nous le connaissons qui puisse propager une mutation générale. Il faut savoir qu’en interagissant avec ce qui nous est étrange, nous ne reconduisons pas l’affirmation de notre « humanité » mais participons de son annulation.

ALI

http://www.trounoir.org/?E-VIDENTES-NOTES-POUR-LA-FIN-D-UN-MONDE

[1] terme brésilien sans traduction connue, le quebranto est un état morbide, d’envoûtement, attribué au mauvais œil (o Mau olhado) par la croyance populaire. Syndrome d’abattement, d’affaiblissement, de prostration et de faiblesse, tant physique que spirituelle.

[2] du portugais « E-vidençar » dont le radical est issu de « vidência » littéralement la voyance (au sens médiumnique).

[3] rencontre intitulée « Desfazendo o gênero » tenue à Bahia, Brésil 2005.

[4] les « capitaines de la forêt » étaient des sujets métis qu’on envoyait traquer les esclaves enfuis et qui tuaient les Indiens au passage

[5] dans le texte portugais original, le terme vie (vida) est décomposé en « V-barré » suivi d’un trait d’union et du « ida » séparé. « Ida » en portugais étant l’aller, ou l’allure.

[6] une des rares études menée au Brésil sur le sujet fut réalisée récemment par la biologiste Anne Ropelle dans son mémoire de maîtrise de la faculté des sciences médicales de l’université d’état de Campinas. Elle raconte que le « Centre de soin intégral pour la santé des femmes » de l’université réalise des tests de spermogrammes depuis 1989. Des 33944 échantillons recueillis entre 1989 et 2016, elle en a analysé 18902. Elle a ensuite divisé les tests en cinq périodes de temps et a procédé à l’analyse des principaux paramètres qui mesurent la qualité de la semence : la concentration (quantité de spermatozoïdes par échantillon), la mobilité (capacité de mouvements) et la morphologie (la forme des spermatozoïdes). « On note une dégénérescence significative pour chacun des paramètres » affirme la chercheuse. La concentration séminale est tombée de 86,4 millions de spermatozoïdes/ml entre 1989 et 1995 à 48,32 millions de spermatozoïdes/ml entre 2011 et 2016. Le ration de bonne mobilité est descendue de 47,6 % à 35,9 %, tandis que l’indice de morphologie « normale » est passé de 37,1 % à 3,7 %.
source : https://www.pragmatismopolitico.com.br/2018/05/semen-ameaca-reproducao-humana.html

[7] la cérémonie d’inauguration du temple a eu lieu le 31 juillet 2014, en présence de la présidente Dilma Rousseff et de Michel Temer, du gouverneur de l’État de São Paulo Geraldo Alckmin et du maire de São Paulo Fernando Haddad.

[8] The Handmaid’s Tales de Margareth Atwood 1984. L’auteur y construit une dystopie situé au Nord des États-Unis dans un futur d’une proximité (volontairement) inquiétante. Suite à un coup d’État théocratique, apparemment motivé par une crise d’infertilité mondiale, la société étasunienne se réorganise selon des principes puritains du XVIIe siècle, devenant la République de Gilead. Le récit accompagne le personnage d’Offred, une des « servantes » qui sont des femmes contraintes de se faire engrosser par des hauts fonctionnaires dont les épouses sont stériles.

[9] la première version de ce texte fut présentée à la MONTRA (Mostra Nordestina de Sexualidades, Travestilidades e Resistência no Audiovisual) le 1er avril 2017, à la Casa Franca, Porto Alegre, Brésil.

[10] el patriarcado del salario. Lo que llaman amor nosotras lo llamamos trabajo no pagado.

[11] personnage des X-men

[12] Foucault para encapuchadas Manada de lobxs Buenos Aires 2014

 

 

 

 

 

Le mauvais augure est une magie des présages. Sa force réside dans l’intuition particulière, dans l’acuité de ce qui échoue et ne se passe pas comme prévu. Sentir le mauvais augure d’une chose, d’un flux ou d’un corps, qu’il soit fleuve, pierre ou fougère des marais, c’est d’abord entrevoir sa matière vibrante. Celle à laquelle je me révèle, à laquelle je suis présent. L’augure se donne en amont des évènements. C’est une sensation pénétrante. Et lorsqu’il s’agit de politique, elle peut nous éviter bien des naufrages.
Le « quebranto » [1] se loge dans les parties du corps infectées par le ressentiment et les problèmes d’ego. L’être ensorcelé ne désire plus qu’une chose : que tout se fasse Ordre.

Mettre-en-évidence (E-videnciar) [2] est l’affaire d’une sérieuse analyse animée par l’impatience d’en découdre. C’est-à-dire de mettre à mal l’espace social pacifié qui de soft power en récupérations construit une politique de vampire.

REALISMOS TENTACULARES – Projeto de extensão

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             O modelo colonial de produção da realidade repousa sobre a separabilidade entre a dicotomia ficcional Humano versus Natureza, que de certo modo, se ramifica em linhas reducionistas para compreender e habitar os mundos. Essa operação reforça também a posição “estanque” de poder dos humanos sobre outros corpos não-humanos. Sendo assim, a constituição do que comumente se chama de realidade precisa ser tensionada a fim de ter seus códigos abertos, e proporcionar a criação de outros modos de percepção e ação. Acreditamos na necessidade dessa articulação.

      Tal condição, por não compor conexões e aberturas com a complexidade das existências e seus estranhos acoplamentos, produz como um de seus efeitos a reprodução e perpetuação de lógicas que cancelam as possibilidades de futuros outros. Sendo assim, a luta pelo futuro enquanto um terreno de conflito político emerge como uma posição de ressignificação e invenção de novos mundos possíveis.

          Em vista disso, as leituras do grupo nesse primeiro semestre passarão pelo combo dos Manifestos escritos por Donna Haraway, pelos manifestos Aceleracionista e Xenofeminista, assim como pelo texto sobre a Diferença sem Separabilidade de Denise Ferreira da Silva. Nossa intenção é usar da radicalidade em imaginar futuros outros, convocadas pelos textos explicitamente, para criar uma zona de discussão impura, em movimento e especulativa.

*ATIVIDADE COM CERTIFICAÇÃO*

Se inscreva aqui: https://forms.gle/1fXbvirGg6n5tY6L6

Para acessar os textos: https://realismostentaculares.art.blog/pdf-dos-textos/

Início: 19 DE MARÇO

19H 30

Mais um texto sobre Bacurau, ou a Implosão da cena Branca.

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   Que a Colonização produziu violência e genocídios, já se sabe. Mas tal violência só foi possível porque os Brancos ao colonizarem os mundos-sem-eles, atribuíram a esses um Vazio fundador, que legitimou uma espécie de espaço sem limites formais para devastação e destruição do Outro, esse, destituído do conceito de Humano, privilégio semiótico exclusivo dos Colonizadores.

       O que torna as vidas de Bacurau passíveis do mais cruel do sadismo branco white trash, é justamente sua localização cósmica num espaço-tempo marcado pela história da colonização e seus atos brutais de opressão contra aqueles que os Brancos acreditavam não possuir alma, drama, emoção, ou qualquer esfera da ficção humana. No processo colonial do passado o poder do Branco soava como um destino, e sua brutal opressão contra o outro, legitimada como “somos inimigos por natureza”. Bacurau consegue lançar aos futuros por vir (e em várias analogias com o presente) que a estratégia colonial de destruição do Outro continuará existindo.

       Mas o que os Brancos não compreendem é que o(s) mundo(s) fora de sua bolha pálida e sem vida, nem sempre corresponderá a sua vontade de dominação, extermínio e carnificina, pois Bacurau não está fundada sobre um Vazio, como pretendia as metrópoles coloniais no passado, um lugar onde “é só chegar e começar a matar”. Ao contrário, é povoada por forças ancestrais que não cedem ao esquecimento, mas que estão compondo continuamente com o presente. Lá, o que se passou, não se torna história remota, esquecida num canto qualquer, mas algo que perdura nas entranhas de uma comunicação subterrânea e que se faz presente quando necessária. Isso, que a esquerda Branca pouco compreende, e que o filme cria como possibilidade política, é que as zonas ancestrais precisam compor enquanto e como “estratégias de resistência”. O que desmonta a imagem de corpo-pronto-para-morrer criada pelos “gringos” sobre a comunidade de Bacurau, oriunda obviamente das certezas históricas da localização Branca no mundo, é o fato de haver uma quebra na imagem previsível de vítimas frágeis que os Brancos criaram para si acerca do que poderia ser uma comunidade de “selvagens” no interior do Brasil, bastando sumir com a mesma do mapa para destruí-la sem nenhum limite ocidental. Bacurau, ao manter múltiplas ancestralidades presentes (mas não visíveis) implode a cena criada pelos Brancos, e não corresponde a nenhuma de suas demandas de representação, que no caso, seria a de aceitarem calados o desejo de carnificina do espectro colonial.  

       Bacurau se nega a ser o Vazio que o colonialismo impõe como premissa democrática aos territórios ocupados. Nega ser o frontier, espaço onde tudo é permitido, liberado e possível, como na série The Westworld. Nega, principalmente, ser esse espaço de experimentação sádica e abrupta da branquitude delirante como em Saló, de Pasolini.

     Pensando nos últimos segundos do filme, acredito que a colonização enquanto tecnologia de morte, portanto de separabilidade de existências, continuará contaminando os futuros próximos. E que o racismo terá tonalidades cada vez mais explícitas na medida em que o delírio separatista dos Brancos atingir seu ápice com o fechamento total das fronteiras e a liberação de zonas legais ou ilegais de extermínio de pessoas não-brancas. Uma versão futura a céu aberto das prisões.

        Há várias questões no filme, impossíveis de apreender tão rapidamente. Mas o que me fica, é essa sensação de que a violência colonial ligada a uma maquinaria planetária não cessa de produzir uma vontade de morte sobre o Outro, em vários níveis do delírio Branco, e que essa vontade de aniquilação, será sempre descarregada naqueles corpos cujo a ficção “Humano” não está acoplada.

      Estamos em guerra, e Bacurau é também sobre a potência de ódio, da revolta e  a quebra da imagem pacífica que recai sobre nós.

Ali do Espírito Santo

Outubro de 2019

NADA EXPLÍCITO – Nova exposição de Ali do Espírito Santo

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Texto curatorial de Paola Zordan

          As imagens de Ali do Espírito Santo surgem de experimentações geoperformáticas, as quais trabalham o corpo, elementos naturais, pigmentos, objetos, dispositivos de captura, manipulações digitais e o que ninguém sabe. O processo,  que sempre segue intuições,  aberto ao fortuito quanto aos resultados e aos meios, mistura linhas, cores,  posturas e encenações. A ênfase na figura não visa qualquer identificação, ainda que a origem das coisas que a compõem possa ser nomeada. Argila, tinta, folhas, óculos, dentes, galhos, cabelos, órgãos, cadeiras, aparelhos, pinças. A estratégia é fugir daquilo que nos rostifica, que nos dá cara, propriedade, algo para chamar de seu. Por isso, no lugar da viagem narcísica, onde encontramos espelhos que rebatem o que somos, um genocídio de si.   Anti-délfico, sibila profecias que nada designam, dando a ver, ao invés dos percalços que nos conduzem aos excessos aos quais se é destinado, a estranheza de devires muitas vezes imprecisos. O “conhece-te a ti mesmo” oculta palavras de ordem aqui completamente aniquiladas.

            Mesmo que advindo de uma sibila que nada desvenda, combate o dogmatismo do que não pode facilmente ser explicado. Ao mesmo tempo, evita o cansaço de linguagens facilmente decifradas, mesmo quando se utiliza de convenções estéticas e clichês. Na síntese disjuntiva do que apresenta traz os veios hídricos e minerais que propiciam descontroles semióticos e exilam os significantes que costumamos colar sobre a figura.  Os conceitos,  criados longe da propriedade dos termos, perdem sua razão de ser. Tudo se afirma numa hidrodinâmica obtusa, que esconde forças submarinas, nas quais o substantivo qualificador “nada” também pode soar verbo e a imagem estática ser apenas fragmento de uma complexa e não visível operação. 

Visitação: de 08 de fevereiro a 10 de março de 2019
Horário de Visitação: de terça a sexta, das 09h às 18h; sábados, domingos e feriados das 12h às 18h.
Entrada franca e aberta ao público

CONTATO:
André Venzon (Diretor IEAVi/MACRS)
Aline Costa, Ana Cristina Gonzales e Eduardo Turski (Produção) – 51. 3216.9913 ieavirs@gmail.com

 

 

Criação e método. Trecho da entrevista para Jordan Lang

Criação e método.

Entrevista para Jordan Lang

          A palavra imagem, deriva de imago, sua origem em latim. Temos também dentro dela o prefixo mag, que em outras situações leva ao substantivo magia, e portanto, dentro da segunda, a palavra mago. A Imagem, seguindo essas intuições, indica antes de tudo algo que se comunica e que pode comunicar-se por si só. Pois há nela uma interferência mágica.

       Nos últimos anos minha pesquisa em fotografia abandonou inclusive o termo “fotografia”, por se tratar de algo que esteve durante muito tempo ligado a um sentido sem forma própria, ou então a um sentido atribuído por demasiado ao sujeito (discurso). Durante esses anos percebi que as imagens que crio, ou encontro criando, tem uma vida própria, independente de mim ou da minha vontade.

           Tal atividade tem sido dedicada a um processo de criação onde a espera foi crucial. Esperei alguns anos até que as imagens que produzi me dissessem algo, ou aquilo que capturei fosse capaz de mostrar-se de alguma maneira. Algumas coisas ainda não se comunicaram.

          Ao contrário do comum, onde o sentido e o discurso operam como ditadores-guia da produção, deixei que as imagens “viessem” até o momento de sua construção ou descoberta. Levo muito a sério a questão da descoberta e tenho me distanciado de falas céticas que entendem tudo estando na superfície. Há coisas paralelas que não conseguimos ver, assim como existem mundos abaixo da malha de repetição que não conseguimos acessar. Há várias maneiras de acessar esses lugares paralelos, mas cabe a cada um saber dos seus riscos. Um processo de criação fora do modelo padrão “artista→discurso→política→afeto”, retoma preocupações antigas, como as que se perguntavam acerca do poder das formas, das matérias e não do sujeito Artista ou dos Conceitos que ele se apropria. Não diria que a linguagem não é importante, mas ela só importa quando opera um transcendental móvel, modificável e altamente obscuro. Ter objetivado a linguagem foi um grande erro da arte. O próprio conceitualismo ficou fraco depois de um tempo, ao se tornar regra para criação. As universidades acabaram com tudo.

            Esse método de criação ajuda a estancar a ansiedade, revira bastante o ego por se deixar fazer entender que é preciso esperar e que o artista não pode tudo; só pode fazer qualquer coisa aquele/a que cultiva uma baixa antropofagia, como diria Oswald de Andrade. Comendo tudo que vê, como qualquer consumidor… Quem esperar saberá lidar com o tempo. As universidades nos ensinam que tudo é possível copiando conceitos e forjando bobagens para pessoas que nos adulam aplaudirem. Quando a arte se preocupa com a forma e menos com o discurso, é o fora que agencia seus caminhos e não o nosso inconsciente.

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Mubashshirat’s da insônia, 2018 | Fotografia em lona 80x120cm

           Nesses anos, percebi que há sempre um espectro que procuro acessar. Algo que transborda das relações entre coisas, humanos, vivos ou mortos, não humanos e objetos. Esse acesso não tem por princípio representar nada, mas tampouco criar uma não representação. Meu objetivo não é ser iconoclasta, mas plagiar a força dessas formas que encontro, a fim de abrir o seu código, quando possível, para as zonas de percepção guiadas pela visão. Mas aí existe um outro desafio, pois o estado ansioso não é só algo exclusivo do artista, mas do público também. Até mesmo esse, é preciso ser educado para esperar. A parar na frente de algo, e deixar que a coisa fale. Pois nem sempre aquilo que encontramos tem um tempo definido ou diz sobre nossos dramas.

              Sempre quando me perguntam sobre se o que faço é político, digo que não e que não mais. Digo isso porque a política na arte se tornou uma moeda de alto custo. Não precisamos dela, pois a arte não dará conta de nada. A meu ver a arte politica é um lobby de artistas ricos, com sérios problemas formais no que se refere a fontes de criação. O que eu faço não se expressa, isso é importante dizer, pois a expressão, o exprimir-se, são motores de um sistema econômico chamado neoliberalismo. Por isso a arte combativa é tão bem recebida, pois só afeta pela expressão e não pela contaminação ou pela forma. Eu insisto nesse ponto, é preciso retornar a forma, por mais nostálgico que isso pareça, pois só ela propõe distância e aproximação ao mesmo tempo. Intuo que seria preciso também até repensar a noção de descarte do belo.

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O retorno da negação I e II, 2017 | Fotografia 76x100cm